(Por: Gisleia Menezes)
BURGUESIA era uma das palavras que estavam estampadas nas paredes da entrada do anfiteatro da UFMT quando cheguei, na noite de 29 de outubro de 2006, dia da realização do 2º turno das eleições presidenciais (pela manhã). Dali a pouco iria começar o espetáculo de ópera “A flauta mágica”, de Mozart.
Desde quando soube do evento, há alguns dias, fiquei na expectativa!! Uma apresentação, em Cuiabá, como aquelas realizadas nos grandes centros. Uma ópera é sempre um grande show, de forma que “...só não vai quem já morreu”, como dizia uma cantiga popular. Entretanto, de popular não havia nada.
E era exatamente isso que diziam as frases soltas na parede, como protesto daqueles que se sentiram excluídos da platéia: os estudantes. Nas palavras rabiscadas a frase: PRIVATIZARAM A CULTURA.
Confesso ter me simpatizado com a mobilização por uma agenda cultural mais accessível a todos, mas eu estava ansiosa e queria adquirir logo o Programa para me inteirar dos pormenores da noite que se descortinava para mim.
Durante as magníficas canções, acompanhadas pelos acordes divinos da orquesta, me envolvi na história singela de Tamino e Pamina e me desliguei do mundo exterior.
Ao sair, ainda extasiada e embalada pela vitória do bem sobre o mal, na saída do teatro a realidade novamente me assalta. Estudantes de megafone em punho e portando cartazes com frases de descontentamento, nos chamavam à reflexão sobre a exclusão social e cultural.
Enquanto eu colocava meu voto na urna, pela manhã, admito que não me passava pela cabeça o que, realmente, meu gesto poderia significar para a democracia e resultar para a sociedade brasileira. Porém, ao final da noite de um domingo, exatamente às 22:23 horas, vendo aqueles estudantes “berrarem” por um país menos desigual, no fundo do coração desejei que esse dia pudesse ser lembrado, no futuro, como um passo a mais no processo de humanização social.
Infelizmente, para minha indignação, enquanto caminhava em direção ao carro uma senhora à minha frente, toda em ouro, incluindo a cor da roupa e dos sapatos, resmungou sua insatisfação, para o companheiro, referindo-se aos estudantes mobilizado: - “Quer assistir? Não vai suar a camisa não (sic) para chegar até aqui”.
A frase ressoou meio esdrúxula vindo de seus lábios, uma vez que aparentava não saber exatamente o significado do que acabara de dizer. Entretanto, quando uma voz masculina gritou entre a multidão: -“vai trabalhar VAGABUNDO”, minha vergonha ficou maior que a revolta.
Estar no meio de uma BURGUESIA HIPÓCRITA me fez perceber como a proximidade com as diferenças nos incomodam. É mais fácil aproveitarmos o fato de sermos privilegiados e nos fixarmos em condomínios de segurança máxima, dirigir com o vidro fumê do carro bem fechado e, de preferência, fugir das manifestações populares.
Cheguei em casa com a cabeça um pouco confusa... o que durou só alguns instantes.
Como todo bom brasileiro que não perde sono pensando em como vai driblar as contas para dar conta das finanças domésticas, deitei a cabeça no travesseiro, fechei os olhos e dormi com a consciência tranqüila. Afinal, a vida é assim mesmo e os problemas sociais não são para nós, BURGUESES.
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