Certa feita, ao comentar com uma pessoa acerca do comportamento de minha filha e de certas “negociações” que interferiam diretamente em sua liberdade, ouvi a fatídica frase: “Não adianta proibir, pois aí faz escondido”. Ainda tentei argumentar que não era uma “proibição”, mas uma negociação, “nos meus termos, lógico, mas percebi que a convicção de minha interlocutora impedia qualquer discussão a respeito.
Ainda por uma outra ocasião, fui criticada por “ocupar” todo o tempo de minha filha com atividades extra-curriculares, pois assim ela não poderia se dedicar ao lazer. Reconheço que as crianças deveriam ter mais oportunidades para brincarem, para cultivarem novas amizades e para decidirem por si só o que querem fazer. Entretanto, também verifico que nos poucos tempos livres de que dispõe, minha filha não faz nada disso. Ela reveza entre a televisão, o computador, o telefone (do residencial para celular) e o shopping. Alguns podem dizer: “E daí? Qual o problema? Esses são os passatempos atuais, diferentes daqueles da sua época”.
Também tem aquela frase que diz: “Você não deve interferir, pois ela pode ficar com raiva de você...”. Complemento com a espetacular e inédita (!!) frase: “Ela não é tão criança como você pensa, pois vê “isso” todos os dias e sabe mais do que você imagina. Não existe mais criança inocente”.
Noutro dia, em um artigo sobre a precocidade dessa geração de crianças, uma psicóloga se manifestava no sentido de que o prazer não tem idade e devemos deixar que as crianças descubram por si só, sem barreiras, uma vez que para cada uma corresponderá um momento diferente. Lembro-me de que esse posicionamento se referia, especificamente, em relação à descoberta sexual.
Você deve estar se perguntando porque estou mencionando tudo isso. Pois bem, o que tenho reparado é que as crianças de agora estão, efetivamente, “largadas às traças”, ou, “jogadas pelo escanteio”, ou talvez ainda, “a bel prazer”.
Veja bem, é evidente e concordo que “educar”, “impor limites”, “ensinar a diferença entre o certo e o errado” e “transmitir valores” são tarefas extremamente cansativas e que tomam muito do nosso tempo, e o que é pior, nos obriga a servir de exemplo.
Perceba a incongruência da situação em que nos encontramos: depois do feminismo, da malhação, da Cicarelli, do Big Brother, e da libertinagem conquistada,...ops!, da liberdade conquistada com tanto esforço, vamos transmitir idéias ultrapassadas à geração futura??
Como explicar a uma criança que tudo o que ela tem visto desde seu nascimento, dia-a-dia, na mídia em geral, bem como nos círculos sociais, não é o ideal de futuro?? Além do mais, como, neste momento tão sublime de nossas vidas - onde não precisamos mais dar satisfações à sociedade, o certo e o errado está na cabeça de cada um e não existe mais consenso acerca do que significa, exatamente, o termo família - devo me privar de usufruir dessa vitória, fazendo o que bem entendo, em prol da manutenção da inocência infantil?
Enfim, lembro-me que Augusto Cury (1) menciona em seus livros o que ele define como “Psicoadaptação”: “...a incapacidade da emoção humana de reagir na mesma intensidade frente à exposição do mesmo estímulo. [...], com o tempo perdemos a intensidade da reação emocional. Enfim, nos psicoadaptamos a eles.” (p. 59). Daí surge a insatisfação crônica naqueles que conquistam prazeres rápidos e fugazes. O que para um adulto pode ser uma conquista, algo novo, aventureiro, poder ser visto, aos olhos da criança ou adolescente, como tão natural e rotineiro, que passa a ser insuficiente para lhe dar o prazer que procura.
Ao tirar da agenda de minha filha a televisão em excesso, o computador exagerado e os passeios inconseqüentes ao shopping, por vezes ouvi-a reclamar do “tédio”, da “impaciência” e da “monotonia”, para logo em seguida vê-la se envolver com alguma criação artística ou um bom livro e esquecer, completamente, do que havia dito momentos antes.
Permitir à criança um contato precoce com a vida adulta retira dela a delícia da descoberta dos lazeres próprios de criança e, depois, das aventuras da adolescência, dos sonhos da juventude e, então, da maturidade da vida adulta.
Por esse conceito, colocar o carro na frente dos bois para não se obrigar a interromper um ato ou palavra inconveniente na frente da criança, ou apertar o botão que desliga a “babá eletrônica”, pode ser uma violência ao direito de viver a vida passo a passo, que concerne a cada ser humano.
Deixar de impor limites porque todos os coleguinhas fazem assim e por ser “por demais estressante” bater na mesma tecla diariamente, pode inculcar na mente infantil - ainda que cheia de informações, mas sem o desenvolvimento biológico e emocional necessário ao entendimento - a idéia de que “é somente mais um(a)” na estrada da vida.
E quando oferecemos a esses seres tão frágeis uma vida de muitas regalias e poucas responsabilidades, ferimos mortalmente o ser criativo e sonhador que mora na alma de cada um, por falta de oportunidade de se desenvolver, pois o cérebro também atrofia.
E, para incredulidade de alguns, pode ser que ainda sejamos, no futuro, acusados de não ter dado a liberdade necessária para que cada criança pudesse ter suas escolhas próprias, uma vez que, à mercê de conceitos ideológicos nascidos de nossas mentes adultas, irresponsáveis e sem limites, encontram-se acorrentadas a uma liberdade nossa, pois nós não queremos nos reprimir, nos conter, nos doar/dedicar a elas, ou nos importar com elas.
Pense bem na sua contribuição para o futuro de nossas crianças.
Nenhum comentário:
Postar um comentário