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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Marchinha - Amigo bipolar

Ao ouvir a letra da marchinha "Amigo bipolar", que está entre as 10 finalistas no do Concurso Nacional de Marchinhas (site do Fantástico), dei uma de desentendida e agi com um "dar de ombros", como se não fosse comigo.

Entretanto, bateu no fundo no peito e algumas horas depois eu já estava "fula", irritada com tanta maldade e achando uma das tiradas mais imbecís que já ouvi. Afinal, não me lembro de musiquetas com frases do tipo: eu acho que ele é aidético..., eu acho que ele é sifílico..., eu acho que ele tem alzheimer..., eu acho eu ele é leproso..., eu acho que ele é canceroso..., eu acho que ele tem parkinson...,"  e por aí afora.

Estou exagerando? NÃO.

As estatísticas mostram que uma quantidade significativa de bipolares tentam tirar a própria vida pela incapacidade de administrá-la, seja pelo pré-conceito, falta de apoio ou de tratamento. Aliás, o pré-conceito e a falta de apoio redundam, inexoravelmente e inevitavelmente, em falta de tratamento.

Isso é piada? NÃO.

Isso é sério.

O bipolar sabe que sua vida, muitas vezes, se alterna entre estar dopado ou estar em crise. Ou estar estressado por ter de ficar extremamente alerta a qualquer sinal, por mínimo que seja, que indique que poderá ficar dopado ou entrar em crise.

Além de não ter graça, ainda é uma falta de respeito. 

Algumas das situações pelas quais passei por estar sob o efeito de um transtorno de humor podem ser comparadas a tantas outras desgraças homéricas e tragédias imensuráves, destruindo relacionamentos,  provocando marcas permanentes e incucando dores indescritíveis no fundo da alma. O que diria minha filha (que herdou problemas emocionais amenizados em sessões e sessões de terapia), meu marido, minha mãe, minhas irmãs e meus amigos mais próximos (alguns, inclusive, nem ficaram mais tão próximos) sobre a dificuldade em conviver com um bipolar? Conheço bipolares que foram abandonados pela família como um peso insuportável, um irresponsável, agitador, encrenqueiro, etc. Também sei de outros que adotaram posturas agressivas, em relação a tudo e a todos, a fim de se protegerem, e amargam uma vida solitária e triste.

Eu mesma já escrevi aqui no blog acerca das minhas dificuldades de relacionamento, uma vez que a imprevisibilidade das minhas reações gera, no próximo, um estado permanente de alerta. Por consequência, recebo um tratamento pré-moldado, independentemente da minha atitude de fato. Se alguém "exagerou", "fez tempestade em copo d'água", foi "precipitado", etc... fui eu, já que essa é uma característica minha. Assim é fácil o outro ser "santo" do meu lado, e ao mesmo tempo, é difícil para mim, manter a calma ao lado dos outros (leia mais em: Bipolariando os sentimentos).

Nós, bipolares, temos dificuldades em estar alegres e em estar tristes, porque a profundidade de nossos sentimentos ultrapassa qualquer noção de demonstração equilibrada.

Já fui tratada de várias formas, desde muito pequena, por não perceber que minhas atitudes assustavam as pessoas. Assim, a reação era mais ou menos branda, conforme o interlocutor. Mas ainda não tinha sido tratada como uma piada, pois se tem uma coisa que veio em meu socorro e me ajudou a administrar o transtorno bipolar, foi exatamente a convicção de que era algo sério e que merecia toda a minha atenção e cuidado.

Registro minha indignação com o descaso que está estampado na letra da marchinha. 

Descaso por parte de quem? 

Não darei uma reposta simplista a uma questão tão complexa, pois entendo que o sucesso de uma afirmativa depende de quanto de apoio ela recebe.

Assim, eu deixo essa resposta para quem tiver a coragem de refletir e responder a si mesmo, em silêncio e sem um sorriso no rosto.

Afirmo: Eu não sou uma piada.  

Sou uma guerreira que vence uma batalha por dia, com a força e a graça que meu Deus derrama sobre mim a cada manhã. E vou dormir me sentindo um vitoriosa, nos braços do Pai.

Confiram a marchinha:

9 comentários:

  1. Gisleia,
    Concordo com sua crítica! Ela é válida e reflete a nossa verdadeira realidade.
    Acho que a bipolaridade é uma doença séria e acho que ate por isso que a marchinha não ganhou, pois eles sabiam a polêmica que isso poderia causar..
    Não concordei com a letra, pois alem dela ser superficial ao falar do amigo bipolar, pois só mostra uma pequena parte da bipolaridade e a pessoa vendo pode ate achar que é uma coisa boa ser bipolar.
    Mas, apesar de não te gostado da letra, achei interessante eles falares um pouco no assunto, mesmo que não seja de uma maneira adequada. Pois, isso mostra que a bipolaridade é muito mais comum do que a gente pensa. E, essas pessoas falando sobre isso é por que tiveram algum contato com a bipolaridade para poderem falar sobre isso, mesmo não falando de forma muito adequada, pois estão levando para brincadeira, etc..

    Beijos

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  2. Na minha opinião, eles não sabem nada de bipolaridade e apenas confundiram os termos: bipolar e bisexual.

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  3. Mente inquienta, concordo que a divulgação do problemas pode trazer também mais compreensão e, consequentemente, mais apoio aos bipolares, a fim de reconhecerem que precisam de tratamento. Mas também concordo com o Anônimo, pois a letra mostra duplo sentido.

    Que as pessoas consigam ter consciência de que o bipolar não tem uma "personalidade" estática e sem equilíbrio, simplesmente, mas sim, que sofrem de "transtorno de humor" e precisam de ajuda para estabilizar suas emoções. Tanto a ajuda de medicamentos, quanto de "colaboração" externa daqueles que podem, deliberadamente, provocar uma crise de humor.

    Abraços,

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  4. Eu acredito que as pessoas simplesmente estão banalizando tudo, valores, crenças, idéias...Transtornos de comportamento sempre existiram, mas a ciência evoluiu e conhece um pouco mais sobre esses transtornos, que nada mais são do que chamamentos de Deus na dor, para o que estamos fazendo com as nossas vidas, nosso ambiente, nossos animais.Ansiedade, estresse, depressão maior, bipolar, ansiosa, tudo isso é falta de Deus e a falta é a morte da esperança.Tomara que um dia acordemos para o chamado de Deus e entendamos que a morte nos leva à eternidade da alma se na vida tentamos seguir os passos do Homem, caso contrário, a morte é a volta para este lugar de provas e expiações, felizes os que fazem do sofrimento uma oportunidade para pensar nisso...Rosane Alessio

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  5. Parabéns pelo texto muito "expressivo". Lamentável músicas como a citada... Mais lamentável, a atitude da mídia de massa, que por vezes dão aval. Aqui no Brasil, deveria haver como nos EUA (Stigma Buster's), que é uma rede de mais de 20 mil advogados que vão em cima da mídia etc. De todo modo, atitude como a sua de mostra a indignação e fomentar o debate, é louvável. Will Brasil

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  6. Obrigada Will Brasil, eu não dormiria tranquila se não colocasse essa indignação para fora. Que Deus nos abençoe, Gisleia

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  7. ´´´gostei muito de seu comentario ´´Penso eu como um bipo, que eu não fui no shomping comprar essa doença . e me parece que é a unica DOENÇA SERIA , que existe piadas para ela...COMO EXISTEM ATÉ PARA QUEM AS TRATA COMO OS MEDICOS PSIQUIATRAS...PENSO QUE NÃO Vou MUDAR O MUNDO ISSO É MILENAR , JESUS FOI CONSIDERADO UM LOUCO POR MUITOS NA SUA EPOCA ,, E OS NORMAIS NO MUNDO TODO PEDEM SUA AJUDA.... EU PROCURO BRINCAR até com o estgma é uma maneirA QUE TENHO DE COLOCA-LO no seu devido lugar ... abraços ..neylobato@hotmail.com ... se quiser entrar em contato .... fique com deus.

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  8. Olá, Gisleia! Gostei bastante de ler o seu post. Realmente o transtorno bipolar é como vc descreve, algo sério, complexo, cheio de sutilezas e pormenores que, no final das contas, faz uma grande diferença na vida de quem sofre de TBH. E vc foi além, lembrando q o TBH interfere na vida familiar e social do bipolar. Enfim, não é fácil não encontrar um lugar entre os familiares e os amigos, ou entre os colegas de trabalho, como mtas vezes acontece! "Não ter parte nisto tudo neste mundo"...

    O TBH não é tão "simplista" ou ingênuo como diz a letra da marchinha. Pensando bem, o q a letra da marchinha tem a ver com o TBH?!

    Tenha um ótimo dia, Gisleia! ;)

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  9. Puxa Breno, depois de muito tempo, hoje consegui resolver um problema que tive com as postagens dos comentários, aí vi o seu. Desculpe. Apesar de tanto tempo, agradeço sua visita e suas palavras. Você sintetizou muito bem o problema social do bipolar. Um grande abraço

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