Paiva,
Marcelo Rubens
Bala na
agulha ∕ Marcelo Rubens Paiva. – São Paulo: Siciliano, 1992
1.
Romance brasileiro: Século 20
“As palavras falam por si, e estas são
minhas.
Quer mesmo saber?”
O
protagonista tem necessidade de narrar.
É urgente o
sentimento que o move à tarefa de contar suas aventuras, desenroladas no
submundo do crime.
Logo no início,
no entanto, ele questiona se o leitor quer
mesmo saber. E a cada episódio reitera, insistindo acerca do interesse,
daquele que lê, em conhecer os detalhes sórdidos.
Mas ele
precisa se expor, de forma que as indagações não passam de meras inserções,
cujo objetivo não parece ser outro, que não deixar incomodada a pessoa que
vasculha sua intimidade, invadido em sua moral, sendo ele mesmo o invasor.
Flávio, ou
Thomas, ou Mel, ou mesmo Surrender, não importa que nome ele use, caminha
sempre para o abismo, o que não significa, necessariamente, que o encontre com
a frequência equivalente.
O narrador
desliza pelo mundo do crime, tanto como autor, quanto como vítima, abençoado
pela sorte de sua imoralidade, falsidade e persistência em não interromper o
curso.
Com a
certeza de encontrar o paraíso, volta-se para qualquer lado que o acene,
disposto e, ao mesmo tempo, assombrado pela hipótese de que a ocasião desse
lugar a que o círculo se rompesse. Mas nada o faria desistir, tampouco o risco
de ser desmascarado.
O dinheiro
e, principalmente, a luxúria, destruíram, na vida de Flávio, o próprio Flávio;
e da morte subjetiva, onde as encruzilhadas determinam o próprio ser, surgiram
personagens livres e temporários, levados pelo vento da ilusão.
Mas qual não
foi sua surpresa, ao perceber que a ânsia pela falta de regas não era somente
sua, mas também daqueles que delas se fartavam?
A diferença, cruel, era falta de pudor, de um, e o excesso de hipocrisia, de vários.
Provavelmente,
até mesmo do próprio indivíduo que bebe suas estripulias até o último gole,
ansiando pelo resultado final sem a certeza da própria expectativa: se pelo
protagonista ou se por si mesmo.
Gisleia
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