Diante das fatalidades da vida, dos momentos de angústia que nos afetam e do peso que muitas vezes carregamos dentro de nós, uma pergunta permanece em mim, latente... incômoda e afiada...
Uma pergunta que arde e queima em busca de uma resposta...
Uma pergunta... que dói quando se pensa... que sangra quando fala e explode quando grita:
_Qual a cor da minha vida?
As paredes do universo, pintadas de cor cientista, são grandes demais para atingir meu mundo pequeno.
As águas do mar da vida, verdes desbotadas de esperança, inundam meus dias secos e áridos.
Os sonhos das crianças, por demais coloridos e brilhantes, como o arco-íris que nasce da arca do tesouro, são complexos e impossíveis de se carregar por todo o caminho da maturidade.
Perto de mim, a lama barrenta, marrom terra salpicado de vaga-lumes de pó de aço e de entorpecente, esconde o terreno fértil e preparado para o plantio da semente.
Acima, o céu carregado de nuvens cinzentas me tira a visão do sol, raios incandescentes, alaranjados, quentes.
E a alegria? ... E a poesia? ...
A expectativa do poeta, de um mundo multicor, ..
Vislumbra-se impossível,
Sem o branco do amor...
Sem paz... sem flor.
A fé branca e pura...
Todas as raças em uma só mistura.
Lágrimas transparentes, trazem à tona cores púrpuras do coração...
Manchas de morte e destruição.
De onde vem tanta raiva, tanta maldição?
Será da inveja ardente, da indiferença selada?
Da visão atordoada?
Saberia eu dizer, com detalhe e precisão:
Qual a cor do meu dinheiro? Da minha desilusão?
Ainda que a imensidão do oceano, profundo e violento,
mergulhasse em seu seio o ódio, o medo e a tristeza que em mim passeia, sei que sobreviveriam amarelo e enferrujado,
com um sentimento profundo... amargurado.
Pode o azul-celeste colorir os meus pecados?
Riscar com o arco-íris o mapa sujo, rasgado?
Percebo a fumaça que paira, densa, pesada e negra, sobre meus dias de negação,
escondida em meio à multidão.
Sinto falta do brilho latente nos olhos...
Da áurea luminosa do sorriso...
Do rubor inocente da pele...
Da rosa... da cor rosa da face...
Onde estão as estrelas brilhantes dos meus sonhos, senão nas asas da ilusão?
E o azul anil dos meus momentos, senão na voz da solidão?
Onde está o vermelho-escuro do meu lápis de cera?
Talvez...
Nas mãos da feiticeira?
Ou na curva da banheira?
Ou mais perto... perto da soleira,
no caminho do portão... da trincheira?
Na pressão dos meus nervos, da minha voz, deixo roxo o semblante,
que saboreia meu descaso sem cor...
na boca faminta o último ressentimento...
as delícias do pastel de vento
e a miopia do mentor.
Qual a cor da fome primeira?
Do grito estridente da merendeira?
Do botão para chamar a enfermeira?
Da inocência infantil na porteira?
Da aflição de sofrer uma rasteira?
Do vazio infinito da saleira?
Será o sangue, colado nas mãos,
mais alegre e colorido
que o branco largado no chão?
Qual a cor do amor,
que não se pinta nas páginas do tempo,
mas sim, dentro daquele que o instigou?
Podes enxergar, sujeito?
Ver o mundo direito,
onde todas as cores se unem,
formando um quadro perfeito?
Consegues ver, senhora,
a cor da vida de outrora?
Sabes dizer, meu povo, com segurança e orgulho,
qual a cor da sua vida,
prevendo a cor do seu futuro?
Já vistes a alvura que te habitas?
Considerai-vos, que a alma não possa ser vista
através das marcas e signos que suscitas.
Será que sou incolor?
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