Qual o sem dom, escrever ou fazer cálculos?
Claro que uma coisa não exclui a outra, afinal, temos que escrever e fazer cálculos todo o tempo.
Contudo, um deles te dá mais prazer, te ocupa, te vicia e te domina.
Tudo bem, tudo bem... não devemos nos deixar dominar pelas situações e, sim, dominá-las.
Mudemos a fórmula e a pergunta: o que te dá prazer incondicional?
Um mergulho, uma caminhada, uma leitura, um filme, uma música, uma balada?
Não importa, o que de fato faz a diferença é se você consegue praticar o que te dá prazer.
Para mim, o tempo não passa quando estou escrevendo.
Mas o tempo, atualmente, passa muito, muito rápido.
Não gosto de ser bipolar. Pronto... falei.
Desde que vomitei todo o meu estresse contínuo em uma crise bipolar, minha vida não é mais a mesma, e eu sei disso porque nunca mais encontrei tempo para escrever como antes.
Priorizar horas e horas em prol do transtorno bipolar tirou de mim a liberdade de administrar meu tempo como bem me convinha.
Graças ao meu bom Deus a sobrevida tem sido prazerosa e pacífica.
Entendo minha jornada.
Entretanto, conto inequivocamente com a graça divina para continuar a dar passos porque meu passado já não serve de parâmetro.
Como qualquer doença, meu tratamento e o cuidado com minhas atitudes interferiram, definitivamente, em minha rotina, por isso esperneio e repito: não tenho prazer algum em ser bipolar.
Dizer isso não é fácil, pois assumir essa condição foi a única alternativa para continuar.
Minha única satisfação é saber que, reconhecendo minha incapacidade de aceitar, meu Deus tornou-se ainda maior e mais benevolente comigo, perdoando minha fraqueza e me socorrendo nos momentos oportunos.
Os remédios alteraram meu humor? LÓGICO. Pois se o transtorno é do humor, eles serviram, exatamente, para alterá-los, ou equilibrá-los, como queiram.
Li relatos de bipolares que afirmaram o medo de se submeterem a um tratamento medicamentoso com o receio de se sentirem bitolados, transigidos e limitados em suas liberdades, mas que, no decorrer da via, perceberam que isso não aconteceu.
COMIGO ACONTECEU.
Sinto-me limitada pela química e abortada em minha liberalidade e expontaneidade.
Esconder isso não me ajuda.
Reconhecer, me auxilia a direcionar as voltas. E que voltas.
Recentemente visitei o blog Bipolar Brasil, e lá estava um post sobre andar em círculos..., e círculos.
Mas também li o post do autor falando de andar em espiral, evoluindo sempre.
E daí?
Todos nós vivemos recomeçando... faz parte da vida.
Mas um bipolar não recomeça... ele despenca e levanta.
Levantar todos os dias, depois de uma queda... CANSA.
O que quero dizer de uma queda por dia?
Que os dias são lutas constantes.
Também li a carta de uma suicida que disse estar "cansada de ser forte".
A diferença, em relação a esta última, como "não canso" de repetir, é que minha fortaleza é DEUS. Não fosse e eu já teria abortado a empreitada.
Tenho uma vida tranquila, como uma pequena minoria poderia ter, com família, estabilidade financeira e amigos de longa data (cadê eles?).
O que me falta? A EXPONTANEIDADE.
Sou palhaça desde criança e profissional há alguns anos.
Mas a graça que recebo hoje está longe de ser engraçada como as palhaçadas que ofereço.
Aliás, as minhas palhaçadas ficaram sem graça depois do diagnóstico, ante a perda da expontaneidade.
Quem sou eu hoje, afinal de contas?
Se para você fazer cálculos, ou nadar, ou jogar, ou navegar na net dá plena satisfação, para mim, é necessário escrever.
Contudo, a mente é a primeira a ser "embolada" e "atacada" pelo desventurado transtorno do humor, exigindo "reflexões" profundas, leituras cansativas, descobertas terríveis e depressões ainda maiores, acachapando e atingindo de morte meu tempo e criatividade.
Implacavelmente, me vejo fazendo cálculos intermináveis sobre como manter a minha estabilidade de humor, de como devo me comportar para ser tratada como uma "PESSOA NORMAL".
Recuso-me a viver em prol do transtorno.
Quero uma vida em tempo integral.
Quero reconhecer em mim a pessoa que aparece no espelho e que, antes, era motivo de orgulho.
É.
Porque agora estou tão apagada e sem sal, que já não me enxergam (exceto quando meus desequilíbrios chamam a atenção).
Como admitir que outrora eu era outra?
Como admitir que todas as vitórias e derrotas não tiveram uma protagonista, eis que morta está pelas terapias e argumentações (equivocadas)?
Como aceitar que até pouco tempo minha prática de visão de mundo, livre das concepções "engessadas", mesquinhas e relativas da sociedade, não passava de consequência de uma "fatal" ausência de diagnóstico?
Querem me convencer de que minha história não passou de um simples "transtorno". Balela!
Lembro-me de ques todas as vezes em que "pulei o corguinho" é porque alguém tinha "pisado no meu calo" e de que minhas petulâncias eram questão de sobrevivência.
E minhas lutas morais e éticas durante esse tempo todo passado?
E meus argumentos incisivos e intensos?
E minhas atitudes extremas e loucas pela vida, cheias de euforia, alegria, sonhos, decepções, tristezas e experiências?
De que valeu o passado? Jogar terra no meu futuro?
De que valeram os discursos? Amparar meu dilema prognóstico?
Rever meus conceitos pode fazer parte da vida, da maturidade e da integridade espiritual.
PONTO.
TUDO BEM... tudo bem... tudo bem...
Não é abrindo mão dos remédios e da psiquiatria que manteria uma vida equilibrada com meus familiares, amigos e colegas de profissão.
Mas bem seria que fosse.
A cada qual o seu encargo.
Sou bem capaz de dizer que meus amigos de outrora se foram... com a medicação e o tratamento.
Novos amigos? Estou ocupada demais em "controlar minhas atitudes" e, por isso, iniciar relacionamentos se torna muito cansativo.
A solitude é mais bem vinda.
Também sou capaz de dizer que meus familiares me desconhecem, ME "ESTRANHAM".
ISSO É BOM OU RUIM?
Ahhhh! Quem dera eu tivesse a resposta.
Acho que vou fazer uma pesquisa de opinião para descobrir se preferem eu antes... ou depois.
Crises, surtos,... fazem parte?
E o mal humor? faz parte?
E o bom humor? faz parte?
Sempre pensei que os que me amassem estariam sempre ao meu lado e, por isso, sempre fui intensa, sincera, viva e pacífica, sem me preocupar com os que se afastavam.
O momento atual me mostra que... Alguns,... sim. Outros,... não.
Como responder a esta questão?
Eu tenho uma história e não quero me desfazer dela.
Tenho um passado, seja melancólico, triste ou difícil, mas que também me ofereceu oportunidades das quais usufruo até hoje e, portanto, colaboraram com a minha formação e enredo.
Quero o direito de SER EU.
Hummmm.... Mas QUEM SOU EU AGORA?
VOU PARAR DE ESCREVER E TIRAR MAIS UM TEMPO PARA PENSAR!
Assinado: Eu. Ou a outra, como queiram.
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